Post Scriptum

A todos as caravelas cujos esqueletos ainda perduram no mar, venho trazer todo o meu sal para que o libertem no outro lado do mundo. Porque o tempo não foi suficiente, ou eu não fui capaz. Não direi que me arrependo mas sim que me entristeço… porque as coisas poderiam ter sido tão singelas e foram tão baralhadas. E os dias que virão não serão saciados.

As decisões nunca foram inconscientes mas também nunca foram deliberadas.

O relógio parou várias vezes por segundos e eu cheguei tarde a todos os encontros. Já tinha perdido, eu sei, mesmo antes de ter começado. Mas ninguém ganhou e a memória ri-se, agora, na persistência da ilusão.

Por vezes no lugar de palavras, saíram pedaços de vidro moído. No entanto, à noite, os lumes do céu acendiam-se trazendo consigo a debilidade do sono. E tudo parecia tranquilo e estável. Era o deitar em cima do muro e olhar o caminhar lento das estrelas no firmamento. 

Os sinais, pintados com os dedos desvaneceram-se a cada chuva… escorrendo pelos rios, pelas casas, pelos carros ou pelas caras dos estranhos com quem me cruzava. E o ego ficou frágil e a mão trémula.

 Mas como todas as histórias, guerras ou anos, o botão é pressionado. O beijo é breve e o abraço inconsolável. E apesar de termos sempre escolha – tal como os meus olhos que te seguiram na ânsia de te ver sorrir – a desistência parece ser mais fácil. Embora não a queira. Porque não quero desistir nem perder.

Post Scriptum: mesmo com tudo o que ficou por dizer ou esclarecer… deixo-te uma caixa cheia de dias claro e sonhos.

IcedRose 11.Nov.2011

A hora…

O êxtase do ontem faz-nos retrair perante a existência do amanhã. Porque o que existirá poderá não ser suficiente para caminharmos rumo ao horizonte, lado a lado. E na consequência duma derrota só pensamos na hora de nos libertarmos, de não sermos mais prisioneiros do amanhã… ou do ontem.

Procuramos, cegos, a liberdade – ou a ideia que temos dela.

Sopramos dentes-de-leão, para que com eles voem as nossas mágoas.

Tocamos delicadamente espigas de trigo ou desfolhamos rosas lilases, contando os dias que terminaram e os desejos que não foram alcançados.

Construímos aviões de papel e lançamo-los ao vento, para que transportem os nossos medos para um local de onde não possam regressar.

Gritamos da torre do castelo as palavras que não conseguimos sussurrar aos ouvidos dos que não nos poderão jamais ouvir.

Mergulhamos nas águas mais frias para que o fogo dos nossos corações se extinga e nunca mais perpetue o sentimento.

Saltamos das pontes de braços abertos na esperança de um abraço… que nunca acontece… e de novo somos puxados.

Sentamo-nos nos muros em dias de tempestade, para que a chuva lave o negro dos nossos olhos, na ânsia de novo se tornarem translúcidos.

E tudo isto por um pouco de liberdade…

Olhamos em silêncio as borboletas néon que esvoaçam para fora do nosso corpo… e vemos, então, que o amanhã poderá ser… tranquilo. E encontramos a hora…

retirada da net

Amor…

Queria que o sol dourasse o meu coração, para que ele fosse precioso para o amor… queria que ele fosse desejado e adorado pelo homem de olhos acastanhados, que tanto quero abraçar. 

O amor tudo espera… tudo quer… tudo anseia. O amor até perdoa e desiste.

Queria que a lua colasse brilhantes na minha boca e que atraísse o amor aos meus lábios… os mesmos que anseiam beijar o homem de olhos acastanhados, que tanto quero acariciar.

O amor consome, arde e arrepia. O amor lança fogo ao corpo, que nunca se extingue.

Queria que o céu me tapasse com o seu manto de veludo azul e aconchegasse os sonhos do amor… onde eu passeio de mãos dadas com o homem, que com saudades recordo… sempre no meu pensamento.

O amor constrói esperanças e derruba barreiras. O amor é um mapa… onde tu procuras o teu caminho mas nem sempre encontras.

O amor é o tesouro que todos procuram, poucos acham, muitos ignoram, alguns desgastam… e outros perdem.

O amor pode cegar ou enlouquecer, pode ser a dor mais violenta que jamais se sentirá. Mas pode tornar-se na frescura após um dia tórrido, ou na alegria da vitória…

Queria que os dias cheirassem a amor… o mesmo que sentiria se estivesse enroscada nos seus braços…

Queria que as noites tivessem sempre estrelas para guiar o amor… as mesmas que nos guiarão os passos sempre que estiver contigo, homem de olhos acastanhados.

Queria que o amor existisse.

Queria que o amor me quisesse.

Queria que o amor me conquistasse.

Queria que o amor fosses tu… queria que o amor fosse eu…

IcedRose

21.Out.2011

Porque perdi o amor… mesmo antes de o encontrar…

Pink

Foi por te ver ao longe e sufocar, que vi que o amor por um estranho pode ser um pedaço de purgatório. Foi por ouvir estalar ramos debaixo dos meus pés, ver o vento roçar na minha face e rebolar no meu cabelo, que te segui pelo bosque. Talvez tenha sido culpa do tronco velho em que me sentei e senti o teu sabor… a tua língua na minha. O céu estava mesmo acima de nós.
Talvez fosse a flor que guardei na bolsa e que seco dentro de um livro, que olho sempre que te procuro –  rosa de cor, verde de esperança.
Ainda sinto casa toque teu.
Na minha pele enquanto acariciavas o meu corpo, numa noite que tentei matar na memória.
No meu pescoço quando roçavas os lábios e me provocavas o desejo.
Os teus dedos – pele suave – que seguem os contornos e os traços do meu rosto triste.
Os teus braços que me apertam como se me quisessem estrangular, que tentam inevitavelmente manter-me longe.
Foi por te ver partir tantas vezes que tenho medo de um dia te perder mais ainda, ou de nunca mais te conseguir olhar.
Como posso esconder o que sinto, como posso amar um estranho… se sou apenas uma presença ténue?
É da noite que roubo a força para dar mais um passo, para suportar a tua presença que se faz sentir todos os dias, todos os momentos que passo contigo, dentro do meu pensamento.
É à noite que roubo os braços que me confortam e que finjo serem os teus, e as tuas mãos suaves.
É à noite que saio do purgatório e me permito imaginar como seria se eu pudesse, se tu quisesses, se eu conseguisse…
É durante o dia que sinto as facadas contínuas mas que nunca me matam.
Se pudesse escolher nunca amar um estranho… se conseguisse nunca te amar, talvez o vazio em que vivo não fosse demasiado oco e as ruínas não teriam tanto pó.

Pudesse eu ser como a flor, rosa de cor… verde de esperança. Pudesse eu amar um estranho.

IcedRose

04.Mar.2011

Porque é necessário ir além do desepero… para encontrar a esperança.

KILL ME

Crescemos empoleirados em balões de ar quente, sonhos da nossa infância, soprando forte para que eles subam bem alto, bem longe, onde nada os possa alcançar.

No rio existirá sempre a ponte.

No céu a Lua será sempre mentirosa.

No mar existirá sempre sets de ondas.

No meu olhar quererei sempre encontrar o teu.

 Quando o ar arrefece dentro dos balões, caímos inertes no solo. Tentamos mover os dedos na busca primitiva da pele do outro – que nunca está.

Mata-me com a tua pele. Impossibilita-me de respirar ou atira-me ao rio de braços erguidos e deixa que a água escorra pelo meu corpo e me transporte. Aí o oxigénio falhará e a Lua deixará de criar laivos de luz por entre a água.

Mata-me com a tua força. Penetra o meu peito com a tua mão e arranca os fios e nós. Esmaga o coração como se fosses uma Figueira estranguladora para que não bata pelo teu. Enterra-o para que ninguém o volte a encontrar.

Suga o sangue do meu pescoço, que escorre sorrateiramente pelas veias, que tanto adoras passear com os lábios. Tira-me a cor e deixa que desmaie nos teus braços. Não será preciso a seta de prata no coração.

Mata-me antes de fingires que me amas. Fecha-me e destrói-me sem paciência. Não deixes que descubra a tua ausência e a tortura que alimentará os meus dias. Mata-me sempre antes de me quereres, deixa que a água quebre o meu corpo e o desvaneça no esquecimento.

Mata-me rápido e nunca me tortures suavemente.

 

IcedRose (10.Nov.2010)

Porque os dias parecem inquinados…

 

Am I lost?

Poderia ser apenas brisa

Suave entardecer de um dia qualquer

Em algum momento desfeito na tempestade.

Todos os navios partiriam

E a pele envolveria o vazio,

Preso por milhares de fios metálicos

Frios… mortos.

Poderia ser água

Serpenteando pelo corpo, como seda

.

Se me pudesses ouvir…

Mas já me perdi.

.

Coloca a mão no meu peito e arranca os fios

Rasga a pele de sal e desprende-a

Se ao menos pudesses ouvir-me…

Tapa a minha boca

Para que dela não saia a poeira

Fogueira ou faca

Que os teus ouvidos não possam escutar.

.

.

Não me recordo como,

Nem onde…

Nem quando a ampulheta se partiu.

Se ao menos me escutasses

E jamais me visses

E eu jamais te sonhasse… a tua pele.

Mas já me perdi.

.

.

IcedRose 23.Set.2010

Am I lost? … nothing is taking me to you…

Sem surpresas

  

Tilintam os sons da madrugada. O sol espreguiça-se lentamente lançando fios de luz – finos fios de cabelo que esvoaçam ao vento. Sem surpresas, encostas-te no parapeito da janela e aguardas o toque do sino que marca a hora – fim do silêncio. Levantam voo os pássaros. Já não se vêem os pirilampos.

Vestes algo. Sais e páras numa esquina e aí permaneces, quieto. Silêncio que se desvanece, as primeiras pessoas que passam, carros, motas, crianças que correm e atiram gritos de alegria quando pisam as poças de água. Sim, choveu de noite…

O vento sacode a árvore em frente, mas dela não sai folha ou fruto. Sinais luminosos – vermelho, verde, amarelo, vermelho,… – alguém que discute. Voltas de novo e fechas a janela.

Dentro a vida parece mais calma. Toda a conversa de ficar desamparado parece ecos vindos da rua. Lá fora a inquietude é tormento que devora a carne. Lá fora as vozes gritam vorazes, procurando a tua cara por entre a multidão.

Espreita por entre os cortinados. Olha o mundo que gira. Sem surpresas. Sem alarmes. Só silêncio.

IcedRose

11.Jun.2010

Ilusão contra a espiral

Branco

Deslaiando os rosas dos sonhos, perdes a cor… como um fresco recente cuja chuva dissolve e desapega da parede. Finges olhar o relógio, pensando que o que falta para te levantares é uma eternidade bem maior que a que falta para adormeceres de novo.
Arrastas os joelhos pelos dias como a água suja de um ribeiro, que morre lentamente não se sabe bem onde…
Ouves as vozes e as horas que passam, e pensas nas horas que faltam para fugires, ou para simplesmente sentir a brisa da noite acariciando a tua face.
A noite chega, a vida retorna à cor de outrora, criando a ilusão do nascer dum arco-íris após a chuva. Aconchegas o lençol e rezas… que perdure.
Mas logo a manhã regressa… são cores que se misturam e que formam o branco do olhar.
O negro existe no interior.

IcedRose (30.Abr.2010)

Never white…. neither black… nothing can be done

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Apetece-me

 

Apetece-me soprar dentes de leão pela janela,

Correr pelos campos húmidos da trovoada,

Que caiu de noite,

E desligar-me da tua mão e cair…        

 

Quero voar, perfurar as nuvens

Gritar do alto da torre.

Da fonte já não sai água pura e cristalina.

 

Vou dançar, cisne prateado sobre o gelo.

Cantar os vários elementos e dormir o sono terno das estrelas.

Saborear frutos,

Sentir o aroma fresco das rosas

Que recebem o sol e as abelhas

Em loucos voos de azul.

 

Apetece-me olhar o horizonte,

Conhecer o mundo – esquecer o mundo.

Ver o infinito em várias cores

E lá ficar.

 

Vou subir bem alto a montanha

Sentir o oxigénio fugir,

E desabar.

Cair no fundo do mar – mineral de quartzo,

E escorregar suave por entre os corais

Em câmara lenta

Rewind…forward…

Fechar os olhos

E morrer.

 

13.Set.209

Lost

 

 Dreams – The Cranberries

 

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Podes viver para sempre

Se alguém te dissesse que poderias viver para sempre?

Que farias? Que dirias?

O tempo por vezes corre rápido por entre o silveiral, como dedos que escorregam e reencontros que falham, se despistam nas curvas falsas da terra.

- Podes viver para sempre!

Queres?

Podes tocar os dedos nos dedos do outro, como quem toca uma flor, como quem sente a temperatura da água do rio, como quem deixa cair a areia da praia e espera que o vento a leve longe, tão longe quanto o pensamento possa alcançar.

- Podes viver para sempre!

Ser pássaro azul, ser a claridade da lua ou esconder a obscuridade do sol. Ouvir o sereno silêncio das árvores num final de tarde, em que te olhas de soslaio no lago… como é lindo o céu a essa hora.

Bed Shaped – Keane

- Podes viver para sempre!

Que farias? Dirias sim?

Viver a vida ou conhecer a morte, vencer no riso ou morrer um bocadinho mais, cada vez que o relógio marcasse uma nova hora. Ouvir o piano desfragmentar as notas, o pano esburacar e o corpo desfalecer por dentro.

- Podes viver para sempre!

Não… mas… podes amar para sempre…

 

IcedRose   23.Jul.2009

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Every picture tells a story

Pressiona o botão e deixa o flash iluminar a escuridão dos aflitos. Depois revela a fotografia e contempla-a à luz vermelha, vendo o branco desvanecer para uma mistura suave de cores.

Atento, olhas. Qual a história que revela? Porque te olhava assim quando a multidão parecia distraída. Vês os pormenores, o botão cuja linha se desprendia do tecido, uma madeixa do cabelo que reflectia a luz da lua, um sorriso envergonhado e um rubor suave no rosto, as mãos que apertavam os braços como se de Inverno se tratasse, os outros que se divertiam e uma flor caída no chão.

Todas as imagens contam uma história… pode ser a de luzes amarelas que se olham nas águas atentas de uma lagoa, ou a de um mar furioso que sobe escarpa acima, como se quisesse chegar ao céu estrelado.

Um dia, quando olhares a fotografia novamente, recordarás a emoção? Lembrar-te-às de mim, que tanto te queria perto, mas que te largou a mão quando a multidão te levou para longe?

Espera que o silêncio da memória se cale, que a solidão da noite se esqueça e que a chuva escorra para os céus. Porque enquanto a fotografia permanecer guardada, mesmo anos depois, o meu sorriso continuará a ser envergonhado e a minha mão continuará a sentir falta da tua. Porque cada imagem conta uma história, como um relógio que pára e não anda mais, como uma ampulheta cuja areia sobe sempre que a olhas e te lembras que, nessa foto, também existia o vento, o odor, o toque, as palavras, o coração e tu… reflectido nos meus olhos.

Guardo-te como uma imagem que nunca se perde, toco-a suavemente com os dedos e peço para nunca me esquecer de ti. Que nunca te esqueças de mim, mesmo que não tenha conseguido fazer-te meu.

IcedRose

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Na cratera

Na segunda noite mais perfeita do ano
Pareciam loucos os sorrisos
Que se soltavam dos lábios.
Os olhos marcavam mapas
E rompiam caminhos por entre a areia da praia.
Setes de ondas enrolavam-se nos pés
Atirando-se aflitas contra as rochas,
E no ar, lufadas de sal tocavam os dedos
- como quem desafia um carinho.
O vento vinha de sudeste,
Empurrando os barcos que ao longe ignoravam o farol.
Do topo da montanha espalhava-se o nevoeiro
E da cratera soltavam-se risos e palavras,
Enquanto as luzes da cidade iluminavam o pontão,
E aqueciam a noite por instantes.
Na cratera contavam-se pedras e estrelas do céu,
Entrelaçavam-se desejos usando as fitas dos sonhos 
E esperava-se por uma lua que não aparecia nunca.
Mas nada iria importar no futuro das cartas,
Porque na cratera a liberdade transformou-se em coração
E os braços em conforto dos aflitos.
Foi na cratera que a segunda melhor noite do ano aconteceu.

IcedRose (29.Dez.2008)

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Night Swimming

Recosta-te na cadeira de baloiço e fecha os olhos. Lembra as noites em que nadavas pelo céu estrelado, sem medo de te afogares ou seres levado pela corrente. Relembra os retratos que tinhas, pendurados na sala, dos sítios onde viveste, das pessoas que conheceste e dos cheiros que guardaste na memória…

Sentes o vento contra a tua face, que rouba as tuas recordações e as embala com carinho – uma noite calma onde nadavas tranquilo sem medo de ser apanhado. Lembra essa noite como se estivesses ao seu lado, na hora e no momento em que as flores fechavam sem a luz do sol e davam lugar à prata da lua e às fogueiras dos céus… em que a tua mão procurava a doçura de outra mão e a imensidão de uma pele que já não consegues alcançar.

Ainda sentes a água que te envolvia na altura, enquanto boiavas na noite perdido na sua pele? Consegues relembrar os pormenores… o aroma que invadia o ar e o carregava de melodias… fluindo pelos campos?

O brilho, o sorriso e a loucura…

Entra na água e acalma a tua sede. Abre os braços enquanto ela te empurra pelos dias e arrefece a temperatura do teu corpo. Imagina que nada mais existe além do anoitecer… e não exijas mais do que uma noite calma.

Ouvirias hoje o seu coração a bater? Distinguirias o seu som por entre a multidão? Deixa que a vida passe calmamente e esquece por instantes que os teus olhos vêem e os teus ouvidos ouvem… as memórias não existem se não houver a quem as contar.

Gravity

       
        Esperas junto ao mar.

Fechas os olhos perante o sol e escutas o céu que te canta baixinho

Lamúrios do vento que passa,

Lamúrios das ondas e marés

E dos sorrisos que se projectam no calor do entardecer.

 

Sentes a força da gravidade

Que te puxa e atrai para o desconhecido

Como uma roleta que dita a sorte

Encarnado no coração – preto na alma e pés.

 

Pareces aconchegado pela brisa que te envolve,

Como se de mil mãos se tratasse,

E não consegues deixar de sorrir levemente

Nem de soltar a lágrima,

Que pela força da gravidade cai na terra e se desfaz.

 

Mas o tempo pára e não foge mais.

Tudo estagna no pêndulo do relógio – as rodas encravam.

É um coração que ouves que se apressa a encontrar-te.

 

O modo como a gravidade pula em nós, como imanes que se colam, como fixa os nossos olhos no sol, na espuma das estrelas e na poeira das ruas, faz com que os sons que ouves se tornem apenas um – que cresce com os dias e se torne gigante.

Agora não podes parar.

 

Cláudia (02.Nov.2008)

O que me desejas?

Tantas foram as vezes que me pendurava nos ramos da nespereira
na esperança de me tornar pássaro.
Dias passaram.
Muitas vezes caí. Muitas vezes me sentei no chão à espera que ele me absorvesse…
 
E de dentro de mim soltou-se o grito
inaudível e incolor -
O que me desejas?
 
De novo colocava os pés nas fendas do tronco e subia.
Via as flores a tornarem-se em frutos,
estes a servirem de comida aos pássaros… e eu ali,
deitada nos ramos olhando o céu.
 
E de dentro de mim soltavam-se as palavras como balões -
subindo e dissolvendo-se nas chuvas .
O que me desejas?
 
E ouviu-se uma voz, parecendo vir com o vento,
terna voz que me acordou…
 
O que me desejas? repliquei…

 

- Tempo – foi a resposta – Tempo, tempo, muito tempo…
Tempo para reaprender
Tempo para curar
Tempo para planear
Tempo para viver
Tempo para sorrir
Tempo para conquistar
Tempo para sentir
e muito Tempo para amar…
 
É isso que me desejas?
Desci da árvore e espreitei o fundo do poço… quase que tocava a água.
 
E a voz tremeu – O tempo que te desejo sou eu… sou eu que me ofereço a ti… Desejo-te a mim.
 

E os dias recuaram, o relógio marcou um compasso contrariado e apressado.
Antes dos dias vieram mais dias…
As chuvas voltaram ao céu e os gritos foram devorados pela minha boca.
A árvore recuou na terra e tornou-se em semente… para de novo a ver brotar.
 
Cuida dela – disse o Tempo - Cuidarás também de mim um dia.
 
IcedRose (26.Out.2008)

Burning eyes

       

Quisera o mundo que o vivesse, pelas mãos leves de um salgueiro que vivia junto à fonte. Muitas foram as manhãs que ali fiquei, atenta… com os olhos incandescentes – olhando o céu à procura dos raios de sol. Espreguiçava-me e sorria, respirava fundo o aroma fresco da água que jorrava e embalava os musgos – um pequeno mundo só meu.

Quisera o mundo que a fonte secasse e nela nascessem pegadas de um elfo, que colocaria fogo às minhas mãos para que nelas ardessem os sôfregos raios de sol. Ouvia ele cantar em redor da fonte…

 

I saw a woman

With two burning eyes

She made me understand

There’re stars in the skies.

 

Quisera ainda o mundo que o dia escurecesse e que nele nascessem fogueiras brancas, uma lua de prata e vários riscos intermitentes espalhados pelo azul-escuro da noite. Os aromas eram suaves, quase imperceptíveis e ouvia-se o elfo a cantar.

 

I saw a woman

With two burning eyes

She made me understand

There’re stars in the skies.

 

Quisera o mundo que o salgueiro desse lugar a trepadeiras carmim, que jorravam dos seus cachos, longos fios de nylon e seda, para com eles tecer uma manta, na qual me deitaria. Quisera o mundo que o elfo me ensinasse a ver as constelações e aprendesse os nomes das luas e planetas que entretanto iam nascendo no horizonte. Olha – disse ele deitado a meu lado – deve ser Marte.

 

IcedRose (20.Set.2008)

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Palavras riscadas

Peguei no caderninho -
De pergaminho prensado e cheiro a sândalo -
E pelas tuas mãos escrevi as palavras do nosso sonho…

Na altura parecia que de luar se faziam os sonhos. Cafés com paus de canela, caramelos de sabor a mirtilo e luzes coloridas a girar pelo céu do amanhã. Muitas foram as palavras que construímos juntos, notas de melodias pintadas com a ponta de penas e rabiscos daquilo que seria o nosso esconderijo.

Traçámos rotas pelo mundo e apontámos todos os nomes no caderno. Escrevemos poemas das paisagens que nos iluminavam os olhos e pintámos os tons do mar ao entardecer, em cada parte do mundo. Mas o caderno chegou ao fim…

Do sonho pouco sobrou –
Palavras riscadas e desbotadas esvoaçando como pó…
Sopras o que sobrou
Como quem coloca em movimento um cata-vento de papel,
Que vai soltando o odor do veneno que bebemos
Nas noites de outrora.

Um dia reescreveremos o sonho – disseste sorrindo. As palavras agora riscadas serão pintadas no céu, como constelações celestes, e juntos esperaremos o firmamento aparecer todas as manhãs.

IcedRose (o6.Set.2008)
Por entre palavras riscadas solta-se o vento e as marés.

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O Homem de olhos azul-acizentados

    
     Há dois dias tive um sonho…
     Posso rever as imagens que descrevem os locais por onde passei… uma calçada junto ao mar, onde a brisa soprava suave; um carreiro de madeira junto ao lago, abrilhantado por candeeiros lusco-fuscos; um lugar amplo onde se ouvia música, pessoas a rirem e partículas de pó mágico pelo ar; o som do mar bem de perto; o muro onde o sonho acabou.
     Posso recordar o pontão que nos segurou, de onde olhámos os fogos brancos do céus. A lua estava linda, assim como o candeeiro que se olhava na água e os peixes que espiavam à tona do lago… recordar a sua voz, a suavidade das suas mãos e a alegria da sua alma – Homem de olhos azul-acizentados – é lembrar o sorriso estampado na minha cara mas que não ousei mostrar por ser demasiado sincero.
     Consigo recordar o que me disse, por o ter escrito em 4 pergaminhos a tinta da china. Falou em guerras e monstros ferozes, batalhas ganhas e desejos alcançados, enquanto pintava contornos de um destino que gostava que eu vivesse.
     Quando acordei queria ter adormecido por mais tempo… segui-lo mar dentro sem o ofuscar, olhar de perto e crescer com ele - estranhamente deixou de ser distância para querer ser proximidade.
     Há dois dias tive um sonho – um homem de olhos azul-acizentados.

           IcedRose (16.Ago.2008)

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Em bicos dos pés (versão II)

      Um dia encontrei-me pela rua, de mãos nos bolsos, e não tirava aquela pergunta da cabeça – que voava pela minha mente como as borboletas da traça por entre os roupeiros – Que fazias tu ali em bicos dos pés?
      Pensei durante dias nas respostas que teria de dar, nas explicações, nas perguntas que, certamente, surgiriam… mentira ou verdade? Simples ou floreada?
     Pensei em dizer que estava a tentar chegar às ameixas maduras e suculentas, da árvore que crescera no meu jardim; que esperava tocar as estrelas, como quem toca a água de um riacho, límpida e cristalina; que estava a atirar pétalas de flores ao vento para que elas voassem alto e longe, e perfumassem o ar com aquele toque precioso da Primavera; ou talvez que estava a aprender a dançar ballet com os cisnes que circundavam a zona em meu redor.
      Mas que dizer? Verdade ou mentira? Olhei em volta e engoli em seco, teria de explicar e não sabia o que dizer. Os pensamentos corroíam-me a lucidez e por momentos apeteceu-me fugir e voar.
      Em bicos dos pés tentava alcançar-te… abraçar o teu pescoço e beijar-te os lábios com a mesma ternura com que te olho e admiro. Em bicos dos pés esperava olhar-te de mais perto e sentir o teu sorriso no meu, saber que ainda te importo. Em bicos dos pés queria precipitar-me para ti e descobrir que me ampararias e nunca me deixarias ir embora…
      Mas não foram estas as palavras que saíram… apenas limitei-me a encolher os ombros, indiferente aos pormenores. Continuei a caminho e perdi-me bosque dentro… lá esperava encontrar o meu jardim, com riachos, cisnes e flores perfumadas. Aí as borboletas poderiam viver livres e coloridas e eu tentaria, depois, andar em bicos dos pés.

             IcedRose (08.Ago.2008)

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Em bicos dos pés

Passeio pelas últimas palavras que trocámos, cegos pelo sol de Verão que fustigava a nossa crença e a nossa vontade oculta de nos vermos uma única vez. Passeio pelas palavras, olho-as, recorto-as em sílabas, reconstruo-as noutras até me trazerem de novo o sentido de ti… de modo a que tudo parece correcto.

      Ordeno-as alfabeticamente, pelo número de sílabas ou por categorias… divido-as em vogais e consoantes, em género, número e grau… atiro-as ao céu e não voam, planto-as em vasos de fina porcelana e não brotam, mergulho-as dentro do mar e não nadam, coloco-as na lareira e não ardem…
       Prendo-as dentro de uma gaiola dourada, mas elas gritam e gritam como se se quisessem trespassar as grades. Acordam-me de noite, com o silvo do vento que as agita, esticando-as mais e mais – tornando-as gigantes de dialectos nunca imagináveis nem nunca antes ouvidos…
      Em bicos dos pés fujo e abandono-as no topo do muro, na esperança que não mais me vejam a percorrer o mundo. Em bicos dos pés fujo dos dias, das noites e até das madrugadas… fujo com a mesma vontade com que a presa foge do predador, mas elas lá me detectam e, de novo, voltam os gemidos e os gritos que só eu consigo ouvir, mesmo de mãos nos ouvidos…
      Fujo em bicos dos pés… tentando sorrir sem demoras, fingindo que elas desapareceram, que se esfumaram nas trovoadas ou na acidez dos orvalhos. Bloqueio os pensamentos para que elas não me ouçam chamar pelo seu nome, pensando apenas que teria sido mais fácil o ódio…
      

     IcedRose (05.Ago.2008)
    
Em bicos dos pés danço em finos fios de navalha, enferrujados pelas tuas palavras agridoces.

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Linhas das mãos

      A pele rugosa das mãos mostra os carreiros que às vezes ousamos percorrer – dias de riso e simpatia que flutuam na memória de um frasco lacrado, com éter e lírios; noites escuras e longínquas que deixam o suor transparecer na pupila dos olhos; madrugadas de loucura com danças e rituais intensos, onde crescem os sonhos e as ilusões por entre os lábios de amantes ocasionais.
     As linhas da mão, que aparecem quebradas, não são mais que paragens de comboio que terminam para outras poderem começar. São dias de sol que florescem e gotas de água que se evaporam para a atmosfera. São encruzilhadas que mudam de trajectória ou vias de um só sentido e que parecem não ter fim…
     As histórias que relatam são livros abertos e paginados, contos singulares ou fábulas invulgares que existem num mundo desfocado e que facilmente podemos atravessar. Acontecimentos diluídos… sentimentos ardidos… palavras desfeitas em migalhas. São grãos de areia que escorrem pelos dedos e voam de encontro ao sol.  Traços de histórias que nunca desaparecem nem se tornam mais fáceis de suportar… transformando cada dia num súplício ou num pedaço de céu azul. Retalhos de memórias que esvoaçam ao vento e que ocasionalmente se tornam límpidas, como se se tornassem numa peça de puzzle recolocada no lugar certo que, no entanto, parece não ter qualquer sentido ali…
      Mão esquerda para o passado e direita para o futuro… linhas da vida, do amor, do conhecimento e que mais sejam… olhos que não as desamparam nem desejos que as construam – laços que se desatam ou preces que se pintam e decoram… um mundo desconhecido ou terreno infértil.
     Como é a tua? Coloca-a sobre a minha para que elas se unam e nunca de libertem, para que possamos encontrar um sítio para recomeçar ou terminar o que apenas nós conhecemos – o nosso segredo.

                IcedRose (15.Jul.2008)
             Por entre luas agrestes, chamuscadas por um sol ardente – os teus olhos.

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O sonho

              Pegaste na minha mão e conduziste-me pelo parque. O final de tarde parecia calmo e no ar vagueavam odores leves a canela e a pinho e nos pés senti o estalar das agulhas que caiam vagarosamente como uma pena… numa espiral de dança contínua.
        Estendi a manta na relva, junto ao lago e partilhámos um gelado… de chocolate, o teu preferido. Nos intervalos beijavas-me suavemente dizendo que o chocolate sabia melhor na minha boca. E eu acreditava. 
        Encostámo-nos um ao outro, costas com costas e fechámos os olhos e falámos durante muito tempo, sem abrir a boca… apenas escutando o coração. E assim caiu a noite, enquanto as nossas mãos se acariciavam. Perto os grilos e as rãs cantavam ao desafio e os pirilampos iluminavam o caminho à noite – amante perfeita dos amores.
        Pela manhã acordei, tudo fora um sonho. Não existias em lugar algum, nem nos livros antigos de magos e fadas. Mas o ar cheirava a novo e logo o meu coração sossegou. E assim passaram as semanas, tu nos meus sonhos à noite e eu sozinha pelos dias… tudo calmo, sem sobressaltos. É bom sentir o sol na face e o calor no coração.

        IcedRose (10.Jul.2008)
        Por entre pepitas de cores e sabores… Talvez um dia te sonhe durante o dia.

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Estranho Barqueiro

          

         Pego num punhado de folhas secas de limonete e aperto-as até as esmigalhar e as transformar em pó. O motivo da minha fúria? Tu, ou melhor, o que não sentes por mim. Pelo ódio que não sentes, pelo teu sorriso colado aos meus lábios e que não existe, pelas palavras que pronuncias e eu não ouço… por um amor que só eu quero que aconteça..
         Da noite nasce a madrugada e as fogueiras pendentes do céu avistam um barqueiro transparente, que caminha ao luar. Das vestes saem cristais prateados e dos olhos nascentes de água pura e cristalina. Dizem que é um prenúncio de mudança… será?
         Deixo os pretos da noite clarearem para os azuis da manhã. O barqueiro despede-se com a brisa suave vinda do mar e que fustiga o meu cabelo. Cerro os olhos e abro os braços para que ele me leve para junto de ti ou para o outro lado do mundo, onde não exista vida. Tanto faz… Se um sonho parece ser inatingível, o outro parece ser tão real como o sol que me encadeia e não me deixa vislumbrar o horizonte.
         Pela tarde fora, escrevo o teu nome na areia da praia, lavado constantemente pelas ondas… até elas querem que não existas, por tanto tentarem apagar-te de mim. Restam as conchas, eternas guardadores de segredos, que dizem só conhecer o som das marés e nada mais.
        Além pintam-se quadros imaginários, por pincéis curiosos e tintas escorregadias. Tento pintar-te, da forma como te recordo, lutando para que as tintas não desbotem nem enlouqueçam e fujam – o pôr-do-sol e dois corpos a passear à beira-mar- deixei secar e o que ficou foi uma tela branca, ausência de cor…
        O barqueiro regressa e convida-me a acompanhá-lo… disse que me levaria até ti. Não sei onde estou agora, nem sei se ainda faz sentido continuar. Não sei quem é ele nem porque me entregou um saquinho de folhas de limonete e me disse para me livrar de toda a fúria e deixar ficar apenas o amor. Porquê? Não sei…

        IcedRose (07.Jul.2008)
        Por entre gotas de mar que se colam a mim e me beijam enternecidas…

       

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A morte veio pela manhã

        Dizem que as pedras do mar são redondas de tanto chocarem entre si… só as pedras do teu coração aparecem esburacadas, com rebordos que parecem farpas embebidas em veneno. Foste tu que lá as colocaste, noite dentro, sorrateiramente.
        A morte veio pela manhã, enquanto bebias o chá de tília… para depois renasceres num novo corpo e numa nova mente, totalmente limpa de pó e anseios. Os dias passarão a ser cuidados, como o jardim da cidade, e na pele sentirás a suave brisa do mar que embala o teu sorriso.

          
           O teu olhar trará o arco-íris aceso… dia e noite… para lembrar aos navios que em ti sempre existirá um porto seguro perante a tempestade. Corre e vai vida dentro, porque já é de tarde.

           Cláudia (06.Jun.2008)

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No hero in the sky

     

     Nunca as atitudes pareceram tão inúteis, como quando a única intenção delas é chamar a atenção de alguém. As coisas parecem sair do controle e é inevitável ficarmos desiludidos com a sua reacção. É o chão que se desloca ou um buraco que se abre, engolindo-nos suavemente para o seu interior… 

      Sabemos o que queremos, para onde queremos ir, mas há muito que já não existe um herói no céu. Apenas o sol tórrido de uma tarde sem dia marcado.
      Escolhemos a hora certa mas o dia errado… E quando conseguimos encontrar um buraco na parede, por mais minúsculo que pareça, é suficiente para fugirmos… nos moldarmos como plasticina. E já no exterior somos borboleta com asas de cristal… que sobe os céus sem perceber o que a impulsiona a ir sempre em frente… até ao infinito.
      E mais uma vez, apanhados por uma rede, caímos por terra… tornamo-nos poças de lama no meio do deserto. Já não existe heróis pelo céu… apenas o sol tórrido de um final de tarde.

            Cláudia (IcedRose) 03.Jun.2008

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O não ser…

      Há no olhar dos seres uma ironia que me engana, que me leva a viver a vida “in media res”, para depois me sugar para um passado que não quero viver. Vivo a vida sofregamente, como os peixes que se engasgam com as cinzas dos vulcões, e morrem junto à costa.
      Pergunto-me se as gaivotas anunciam a tempestade… pois um bando pretende circundar os restos daquele tronco além. 

     
      Saber ser, estar ou viver. 
      Saber sorrir, cantar ou lembrar…
      Saber ser ou não ser. 

      O não ser não está, nem vive, nem lembra. As gaivotas podem vir, porque o não ser não as olha com o mesmo olhar com que o melro olha a cotovia e o bicho-da-seda devora a folha da amoreira. O não ser não usa coração, nem tem asas de condor para cruzar os céus laranja ao pôr-do-sol.
       Nele não existe passado ou futuro. O presente é apenas uma sucessão de dias e noites que vão transformando a pele em lascas. Um não ser moribundo que não respira ou sente. Um não ser que sou eu, que vive a vida pela metade, tendo essa metade uma outra que está gasta e turva pela saliva. Uma metade que é uma parte de rocha calcária que destoa com o ácido das chuvas.
       Poderão vir os sábios e os mágicos, esculpir o barro que sai pela minha boca, mas dele não construirão castelos nem palácios de gigantes… pois o barro é pó que se desfaz e se perde pelo ar, que queima os pulmões e corta as veias em gritos aflitos.
       O não ser não sabe que as cinzam servem de adubo e que do barro se constroem vasos… onde os lírios brancos crescem e enfeitam o coração. O não ser não sabe que tem coração porque ele não bate, nem marca os segundos que passam… mas ele está lá… invisível.
      
                Cláudia (IcedRose)

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A inércia do ser

     

     Tudo parece relativamente simples quando planeamos o futuro. Calculamos equações do segundo grau, analizamos funções e gráficos circulares, elevamos tudo ao cubo e mesmo assim nunca obtemos um resultado próximo do que será a nossa vida real.
     Há na vida uma certa inércia que nos leva a desistir… ou de evoluir profissionalmente, emocionalmente, racionalmente ou socialmente. Nada consegue explicar a crise… uns dizem que é por falta de coragem, outros por falta de sorte, outros por falta de oportunidade. Mas o que é certo, é que os objectivos deixam de se tornar claros e acessíveis e tudo parece resumir-se a algo incompreensível e impossível de solucionar.
     Muitas vezes tudo parece um grande caos, onde um sopro tem um efeito catastrófico. Um furacão que se forma ou um tsunami que nos inunda. Nada parece fazer sentido e o que se vê ao longe é indistinto, uma forma qualquer meio desnuda…
     Foi assim que me senti quando me precipitei para ti. No entanto a inércia que é o meu coração, bloqueou os meus movimentos e o meu olhar. Como se se projectasse uma sombra e esta se sobrepusesse diante de ti. Não distingo o certo do errado, muito menos o caminho a seguir. Não sei se hei-de ir pelo que está a chover ou pelo que está a fazer sol, simplesmente porque não consigo ver onde estás… e tu pareces não querer que eu te siga.
    A inércia do ser é como corpo que nos toma e nunca nos larga, ladrão furtivo da razão que nos atenua as capacidades. Nunca nos julgemos livres, porque por mais que a água seja límpida e transparente, as algas crescerão dentro de dias e a tomarão como sua.
    Mas quando ao nosso lado temos a companhia de outro ser, este parece ser um pequeno antídoto que nos possibilita ver o caminho, a chuva ou o sol, onde as equações e soluções parecem coincidir em alguns pontos.
   
               Cláudia (IcedRose)

   

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Incompreensão

      

      Quem sofre é incompreendido pelos outros. Porque somos fracos demais para criar muros de xisto à nossa volta, e então deixamos que tomem o nosso coração. Quem sofre sabe que o sol torna-se irrelevante, a cor desnecessária, a água veneno e o beijo morte.
      Sim eu sei… porque o meu muro era de barro e ia alto. Mesmo assim, um ser gigante, com a irreverência no olhar, saltou e desmontou-o, peça por peça como um puzzle. E tudo o que parecia armadilhado deixou de funcionar. A razão deixou de ser água e o sentimento azeite.
      Quem não viveu, não sentiu a loucura que é respirar, a dor que se sente ao correr contra o vento numa falésia. Quem não amou não sabe o que é amar, só sabe que se sente felicidade… Quem nunca amou, não sabe o que é olhar - entrar por ali mesmo e ficar a conhecer a alma do outro; não sabe que as mãos tecem laços sempre que se tocam e que o corpo se funde insistentemente procurando a absorção de si mesmo no outro.
      E quem ama o que sabe? Saberá porque ama, ou o que é amar? Algum dia o sentirá a correr pelas veias como um ópio? Sinto-me de olhos vendados a percorrer um longo céu esburacado. Não sei onde começa a razão e acaba o sentimento, de tão misturados que estão – uma mistura explosiva que ameaça rebentar.
      Ao longe não vejo nada e atrás de mim correm vorazes as sombras, que teimam em aparecer.
      Queria que me olhasses como quem ama. Queria ser diferente, sim. Trazer no peito um coração de ouro e prata e nos olhos o brilho puro dos diamantes. Nas mãos traria rubis e esperaldas e o cabelo seria de seda pura. E como não precisaria nada disto, deitaria tudo fora para ficar apenas com o teu coração, porque esse seria o bem mais precioso que alguém me poderia confiar.
       Permanecerei vida fora, enquanto aguentar carregar o peso dos dias. Mesmo que vá sozinha…

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A doença que é amar…

       
       Há dias em que tudo parece andar num fino fio de navalha, cravado a fogo com as iniciais do destino. Tentas atravessar o caminho e cortas os pés e magoas-te… Sentes dor, descansas e voltas a caminhar, sempre a pensar no fim da navalha, onde a lâmina já não te pode alcançar.  Mas há aqueles dias em que nada faz sentido ou em que tudo parece uma perfeita ilusão que gostarias de viver - que te faz sorrir por momentos e desejar estar mais perto dessa fonte.
      Sim dava tudo para o que está escrito a seguir fosse verdade e não uma ilusão… porque alguém me escreveu isto… porque esse alguém não faz a mínima ideia de que o meu mundo não gira sem ele a soprar sobre ele, o sol não brilha sem ele estar a olhar por mim, porque as palavras trazem as sílabas soltas se ele não as disser ao meu ouvido… porque o meu coração não quer bater sem estar colado ao dele…
      Sim, podem chamar-me louca… porque é exactamente assim que me sinto. Mas não sei como apagar o nome dele da minha cabeça nem da minha boca… como gostaria que fosse verdade… mas que fazer?!


“O amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura”  O.V.

      
             

        Partilho com ninguém … porque ninguém vai ler… estas palavras por não as conseguir esquecer, por não conseguir apagar… porque queria estar agora a dizer… ele é meu … e eu sou dele… eu sou tua sim!

#  querida – tenho vontade de estar ctg – tenho vontade de te abraçar – isso não é uma mentira.


#
  e eu sei que tu tb tens -
não adianta DIZERES que não-
eu sei que tb me queres.

#
  gosto muito de ti - 
tu sabes disso - adoro-te -
e por isso me preocupo ctg.

#  deixa-te de moralismos - sabes bem que é verdade - e sei que tb me queres.
 
#  diz-me
 que não me queres? - 
diz-me que não me queres muito.

#  e se eu te pedisse para me beijares, sabendo que eu podia ser teu, farias?

#  pois mas eu quero ser teu -
todo teu - só teu.

#  diz-me que me beijavas, que me amavas

#  minha querida – meu amor.                                                         19.Abril.2008

     Não houve beijos, nem mimos, nem abraços… apenas palavras que não querem parar quietas de tanto atordoadas que estão… parecem abelhas por entre fumos. Nunca me apeteceu tanto desaparecer, extinguir-me no abismo que criei… porque nada disto é verdade como gostaria… porque simplesmente não mereço ouvir isto e não sentir que é real. Sinto o meu corpo esburacar-se na vertigem do vento e a minha alma parece diluir-se na desilusão de um amor que nunca chegou a ser amado.
    O que faria se fosses meu? olhava para ti até te tornar real, sentia a tua pele e o teu sabor até os tornar na minha pele e no meu sabor, amava-te até me amares para sempre… e amar-te-ia de novo para que eu te amasse para sempre… e ficava ali a olhar para ti.
     Entretanto, enquanto a minha vida continua exactamente na mesma, antes de tudo isto acontecer, ou secalhar pior, vegeto durante o dia e morro suavemente noite dentro… até ao dia que o meu coração se esqueça de bater ou se esqueça de ti e de tudo o que me faz sentir triste…


        Nothing matters anymore… even the rain outside…  

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Abismo

         

      

     

      Imaginamos a vida sempre para lá do que a vista pode alcançar, corropias de serpentinas ao luar e balões de ar quente a voar. Imaginamos um cento de coisas que gostaríamos de fazer ou ter; imaginamos um céu límpido como a água da nascente ou a brisa suave de uma noite de Verão. Sem medo de sermos orgulhosos, fortes e esguios.
      Imaginamos as manhãs e as tardes de sol, as noites cheias de estrelas e o cheiro a terra molhada. Sentimos ao longe o aroma das Cassiopeias que nos contam histórias de cavalos alados de outrora, fábulas encantadas. Tudo isto escrito em folhas de pergaminho enroladas e lacradas, como um tesouro ou uma raridade nunca antes experimentada.
      Entretanto vêm as primeiras chuvas e, a uma passagem do limpa pára-brisas, esperamos ansiosos por um dia sem chuva. O tempo piora. Chegam nuvens vindas do Norte que fustigam a nossa pele e ao longe caem minúsculas pedras de gelo, por entre o silveiral.
      Depois do gelo vem o vento cortante, que abre frestas no coração, nunca antes protegido contra o mau tempo. Vestimos um casaco de lã e olhamos pela janela o que nunca pudémos tocar – a rua, as pessoas, a pele… – Iludidos pela mudança de estação experimentamos primeiro sair à porta, depois tocamos as flores das glicínias que pendem na varanda, depois a rua, as pessoas e chegamos à pele.
      Nunca nos démos conta da ilusão que carregávamos no olhar, do sabor real do vento ou do frio agreste do toque. E quando quisémos regressar à janela já não havia porta alguma, apenas um penhasco protegido por corvos. E a ilusão tornou-se em loucura e devaneio e nada mais resta senão experimentar andar para lá do abismo e imaginar que estamos, algures, para lá do que a vista pode alcançar… porque nada mais existe em redor nem nada poderá concertar a desilusão que se apoderou de nós. Já nada faz sentido, nem sabemos como deixámos isto acontecer…
      Erque-se a lua ao longe, os corvos esperam por nós madrugada dentro… deixemo-nos ir… mesmo que o abismo amorteça a nossa queda…

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No pontão, às 20 horas.

     

     
       Estavas no meio da multidão, à espera da tua vez para pedir uma coca-cola. Eram onze e meia e estava a ser uma seca. Os amigos do costume, as conversas do costume, o lugar do costume… tudo era um costume. Mas que coisa! Porque tinhas de sair de casa? Logo hoje que ia dar o teu filme preferido na TV…
      Foi então que ela surgiu, ao longe como uma pena que se eleva no ar. Ninguém reparou nela, era uma rapariga normal, sem grandes atributos. Sim, era muito normal… Viraste a cara e foste ter com os teus amigos. A noite prolongou-se e de vez em quando, lá espreitavas de soslaio, como quem vigia sem querer ser percebido.
     A semana passou… e de novo a sexta-feira, de novo o mesmo bar e as mesmas pessoas… e ela, de vestido lilás. Foste pedir uma bebida e alojaste os cotovelos mesmo ao seu lado, no balcão. Trocaram olhares e ela corou e virou a cara. Quando olhou de novo disseste olá e ela respondeu: – Olá Frederico!
     Andaste a semana toda a matutar como saberia o teu nome… mas como? Aos virares a esquina vais de encontro a alguém, ela cai. Sim era ela! Sem saber muito bem o que fazer, pediste desculpa e acabaram por ir tomar um café. Pela conversa relembras o exacto momento em que se conheceram. Colegas de Faculdade? Ela tinha sido caloira, praxada por ti. E pelos vistos não tinhas sido muito amável. Tinha sido uma altura difícil… um amigo teu tinha falecido e todos eram responsáveis, aos teus olhos claro!
     Sairam outras vezes. Café e uma conversa… e uma vez afastaste-lhe a madeixa de cabelo dos olhos e ela corou novamente e afastou-se. Sabias o que queria dizer. No dia seguinte não aguentaste de tanta ansiosidade à sua espera. Mas como poderia estar atrasada?! Ah, pois. Ainda faltavam 10 minutos.
     Estava cada vez mais difícil controlar o que sentias. Foram até ao parque verde da cidade. Sentaram-se num pequeno pontão que embatia no rio, no rebordo. De novo tocaste-lhe no cabelo e ela de novo afastou-se. Mais tarde tocaste na mão, com a tua toda a tremer, e de novo ela se afastou. Estavas inquieto e sentias que ela estava ausente. Perguntaste se estava bem… ela acenou que sim.
     A noite aproximava-se e com ela o nevoeiro. Foram jantar ali perto e depois andaram a pé. Encostaste os teus dedos aos dela e suavemente deslizaste a mão até a apertares. Ela pareceu aceitar… e estava a tremer também. Chegou a hora de a deixares em casa. Seria cedo para um beijo? Sim, ela nem deu hipótese de matutares muito no assunto.
     Não a viste durante dois dias. Ela dizia que estava ocupada. Seria? Chegou o fim-de-semana e saiste com os amigos e encontraste-a no sítio habitual. Pediste para falar com ela e já fora do bar perguntaste o que se passava. “Nada…” – disse. Apenas disseste que tinhas saudades de estar com ela… Ela nem respondeu. Simplesmente colou os olhos ao chão. Tentaste chegar mais junto a ela, mas ela desapareceu. Seria possível?
     Passou uma semana e tu sem notícias. Já te sentias a perder o controle e então combinaste um encontro, no pontão. Ela apareceu e de novo sentaram-se a olhar um para o outro e depois para o rio… estavam a falar quando ela se levantou de repente porque mais uma vez queria fugir. Tu levantaste-te também e ela desequilibrou-se e lá a seguraste. Sentiste a respiração dela junto à tua, tão junto que eras capaz de, quase, sentir o sabor dos seus lábios. Ela afastou-te e disse que não. Perguntaste porquê. “Porque não acredito que tenhas mudado desde o tempo da faculdade. Trataste-me muito mal na praxe, porque eu usava óculos!” – Disse ela. Sim era verdade, tinhas sido cruel. Já nem reagiste.
     Nas breves mensagens que trocaste com ela no dia seguinte, tinhas sempre a mesma resposta. Mas como mostrar que estavas diferente, que a querias demasiado para voltar atrás? Como irias libertar-te de toda esta angústia que te derretia por dentro, como ácido na ferrugem?
     Uma mensagem simples: “No pontão, às 20 horas. Leva o vestido lilás.” – E lá estavas tu, tremendo que nem varas verdes, quando a vislumbraste ao longe… as luzes que colocaste no pontão, ténues, iluminavam-lhe o caminho até ti. Na mão tinhas uma rosa branca que lhe colocaste no cabelo. Ainda a tremer pegaste-lhe na mão, colocaste-a sobre o teu peito e disseste: ”Sentes? Quase que dá para se ouvir ao longe…”. Ela não tirou os olhos de ti. “Se ao menos pudesses entender que nada daquilo faz sentido hoje… nem me orgulho de tal coisa, acredita!”.
     Depois disseste-lhe que aquele vestido faz-te lembrar o exacto momento em que te apaixonaste. “Olha para mim. Sim, estou apaixonado.”
     O que aconteceu depois nem a lua conseguiu igualar com o seu brilho… o mundo não girou, nem o nevoeiro apareceu, nem o beijo acabou… aquele momento ficou ali, naquele instante em que sentiste o sabor da boca dela. Nunca mais os ponteiros rodaram…

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Limite da loucura

     

 

     

      Faz-se tarde nos teus olhos, estás inquieto e apavorado sem razão aparente. Ela apenas esboça um sorriso envergonhado quando passas. Tentas tocar-lhe os cabelos com um dedo, mas não consegues mexer a mão nem controlar os tremores e suores frios que se apoderaram dos movimentos. Sorris também e continuas de olhar fixo na erva daninha… que nem vês que está em flor.
      Durante o trabalho pensas nela, quando falas com alguém pensas nela… qual o sabor dos lábios. Quando te deitas à noite imaginas-te como o seu amante perfeito, imaginas-te a abraçá-la num afago suave, sem dares conta que estás a apertar a almofada com tal força que quase a estrangulas. Reencontras a realidade e adormeces, com o coração dorido e angustiado por não a teres… tudo não passa de uma ilusão.
      Pela manhã vais ao supermercado, comprar mangas… com a desculpa de ser coincidência. Atravessas a cidade, passas dezenas de lojinhas e supermercados… mas ela está naquele, onde tu a viste pela primeira vez. Acabas por comprar mais umas frutas, que provavelmente nem comerás. Sentes as forças a fraquejarem. Está na hora de ir embora. Nem sabes como, ou o porquê de levares pêssegos… detestas pêssegos.
      Passou mais um dia, e outro… acabas por comer uma laranja. Pensas em convidá-la… mas não tens coragem. Ela nunca iria querer, pensas… ficas triste e fechas-te em casa o fim-de-semana. Nem abres as cortinas nem acendes a luz… porque nada disso te é necessário ou suficiente… Ela sim… imaginas uma praia, um beijo encostado às rochas.
     Mais uma semana. Passas por ela no autocarro e encostas-te a ela para deixar entrar uma idosa. Sentes o perfume, um aroma suave, muito ténue, que te fez inspirar fundo e querer abraçá-la. Ela olha-te nos olhos, incomodada por estares a apertá-la de encontro ao varão onde se agarrava. Pedes desculpa e ela, com o olhar mais delicado e a voz mais insegura que já ouviste, diz-te que não fazia mal… e disse o teu nome. Soava tão bem o teu nome na boca dela.
        Não conseguiste dizer mais nada, a não ser um “xau” quando saiste do autocarro. Os dias correram e a tristeza, de não teres falado mais com ela, aumentou, ao ponto de te chamares idiota.
       Consegues o número dela, com uma amiga de ambos. Marcas o número, desligas. Marcas novamente e desligas. Desistes. Isto parece ser a coisa mais perto da loucura que alguma vez poderás sentir… especialmente quando ela atende e tu dizes quem és… e ela aceita o teu convite.
        Saem juntos, estavas tão nervoso… levaste-a a uma esplanada perto duma pequena serra, de onde se via o mar. Ela adorou a vista. Falaram durante horas, o tempo passou a correr. Mas tudo esmoronou quando, numa conversa a caminho de casa, ela te disse que namorava e que estava para casar.
       Engoliste em seco e passaste os dias seguintes meio anestesiado, hipnotisado pelo vazio, sentindo um vento de loucura dentro do teu coração. Não voltaste a ligar e quando cruzaste com ela no outro dia, não disfarçaste o sorriso amarelo. Ela tentou meter conversa mas tu só conseguiste emitir uns grunhidos e um encolher de ombros. Nunca tinhas reparado que as ruas eram feitas de paralelos. Ela convidou-te para sair e tu, quase de lágrimas nos olhos e a cerrar os punhos para tentares controlar-te, dizes que não… não podes.
      Loucura… era estar junto a ela… Loucura era estar longe dela.
      Não sabes como acabou… porque os dias que se seguiram não existiram. Os calmantes pareceram surtir efeito quando te deitaste na banheira cheia de água e adormeceste. Ela nunca soube…
 
               Cláudia (IcedRose)

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“O coração tem razões que a razão desconhece”

            

          Saboreando as recordações que sempre partilhámos, segredos do passado perdidos em diários gastos pelo tempo, sinto que tu és todos os motivos, todas as esperanças e todos os sonhos que alguma vez tive.
          És e sempre foste o meu sonho, és algo de belo e forte que, todo músculos e astúcia, permite ser raptado por um poeta perdido e amedrontado com retalhos de memórias de um intenso amor. Pela primeira vez sinto que não sei o que escrever, pois tenho uma vida inteira de recordações e não sei como as pôr em palavras.
          Ouviu-se um silêncio, à excepção dos sons que derivam dentro de ti. Tu achas que chegou a hora, a hora do teu voo livre nesse silêncio desmedido, longe de tudo e de todos e onde surges na tua plenitude por entre contos e situações reais, que te levam a fazer coisas que nem eu sei porquê e creio que nem tu o sabes.  Atento ao que te rodeia, ao mínimo pormenor, ponderas o que mais te cativa, noites, estrelas, poemas… pois é, agora deixaste-te perder no cosmos, deixando para trás a razão de ti mesmo e acabaste por me levares contigo. Sentes-te, também perdido e amedrontada, como esse poeta que te cativou, deixando-te sem razão, sem nexo, mas ambos sabíamos que existia uma razão, ambos sabemos também que não conseguímos explicar estas nossas acções.
         Tu tens razões que nem a razão conhece e, pensando nisto, acho que se nós não nos tivéssemos conhecido, podíamos ter passado um pelo outro, tal e qual duas partículas de poeira cósmica e nunca teríamos viajado nas estrelas cadentes, por entre planetas e galáxias, tal como acontece no amor.
         Vejo a chama ao meu lado, da vela que se vai apagando e me faz lembrar outras chamas, outras décadas imemoráveis ao som de “Forever Love” e ambos começamos a obter de novo a razão que perdemos com a chegada do poeta.
         Parece-me que somos a mesma pessoa, jogando os mesmos jogos e esperando encontrar um sítio onde os nossos sonhos também possam jogar, por isso devemos enxugar as lágrimas, olhar o céu azul e acreditar que este é o tempo da verdade e que devemos encontrar os nossos antigos sorrisos e compartilhar para sempre as nossas vidas, buscando a razão de viver.
         Tu és agora, nestas últimas e ternurentas horas, frágil mas forte, sabendo que virá um novo raiar de luz matinal despertando só em ti um novo sonho porque… para mim… o meu sonho és tu! És tu que me compões.

                  Cláudia (algures em 1999)
                  A minha segunda prosa escrita. Intemporal.

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Linhas ténues

            

        Sempre que me encontro a teu lado, pressinto que algo preenche o elo que liga dois segmentos e os arredonda, tornando-o rijo e inquebrável – um no céu e outro no mar – o eu e o tu.
        Dava tudo para que as marés recuassem de novo, dias a correr para trás como a água, que de novo entra na garrafa e que de novo volta à prateleira. O regresso à inocência.
       E dava mais ainda de mim, as cores do mar nas diferentes horas do dia – verdes que progressivamente se tornam azuis – para poder ter as tuas cores do céu – azuis que se tornam vermelho ao anoitecer. Dava ainda um pouco mais, os corais e as conchas, o sal e o sol reflectido – o teu olhar no meu.
      Porque nada tenho de ti, nem  um beijo, nem um gesto mais atento. No entanto o elo existe - o beijo doce e suave, o gesto terno… como se fosse um misturar de duas realidades, o céu azul e o azul do mar ao anoitecer, nos dias em que a lua se mostra e desvanece num círculo perfeito – uma espécie de abraço doce que se derrete.
      Sinto-me a enlouquecer pois a linha ténue do horizonte não desaparece nem desvanece, apenas continua lá para nos lembrar que o muro é intransponível, demasiado alto e escorregadio para que possamos tocar nossos dedos.   
      Desisto pois a noite já vai longe e o sol parece nascer no lado oposto…

               Cláudia (05.Fev.2008)
                O elo que falta é o teu amor por mim… pois o elo que te dei não chega para nos amarrar um ao outro.
        

Just don’t feel the same

      Do lado de fora da janela voam loucos os corvos do teu sonho, devorando os fumos das árvores e cuspindo brilhantina e fitas de lã sobre as águas.
      Relembro todos os momentos que partilhei contigo, onde o musgo cresciam e os fetos entrelaçavam-se nas nossas pernas. Como adorava passar a minha mão pela tua face… de te abraçar, para não te perder naquele instante…
      Gostava de ter conhecido, contigo, lugares distantes e sabores exóticos, onde nos pudéssemos reconfortar por entre peles macias de cordeiros. Mas com a noite veio a geada e os temporais, que mais me distanciaram do teu braços que tanto adorava sentir. As estrelas apagaram-se no breu de uma morte certa e nunca mais consegui achar a ursa maior no castanho dos teus olhos., que tanto amava beijar.
     Vem de novo e ama-me, da mesma forma que gostaria de te amar de novo… Beija-me da mesma forma que te beijo do lado desta janela…
      Porque nada é igual sem ti…. porque nada é semelhante à alegria de te ter como meu…

               Cláudia (14.Jan.2005)
               Enquanto as nuvens cinzentas ensombram os céus.

As voltas do sol

     

          Entre os ramos de árvores caducas, estende-se um fino raio de sol, tecido pelas mãos delicadas de dois amantes.
     As voltas do sol tornam o mundo cada vez mais imperfeito… Amantes que se tornam em amigos, que por sua vez se tornam em pó, guardado sobre os móveis duma pensão rasca e bolorenta.
     A cumplicidade funde-se agora com a traição, parecendo cavalos alados soltos pela pradaria… sós como eu… qual serei?
     Os raios de sol trazem a solidão dos tempos idos e vindouros, e as perdas irreparáveis do pensamento, que saboreio como se fosse chocolate.
     As voltas do sol trazem também as ruínas e os fumos das memórias. Cheiros fortes a enxofre, nauseabundos.
     E assim será… e assim estarei… agora e depois., querendo sentir os teus braços em meu redor e as tuas palavras no meu ouvido, sussurando que tudo ficará bem e que estarás sempre comigo.

     IcedRose (01.Fev.2005)
     Sobre uma luz que pisca numa parece esburacada
.

Antes de ir…

          Há facetas e caras que desconhecemos e que nunca pensámos serem aquelas com as quais conviveríamos mais profundamente.
        Nas voltas do sol vêem-se luzes que se alastram pelo vazio das ruas e sentem-se aromas, que voam em torno de algo indefinido… uma estátua, réplica perfeita do ser…
        Antes de ir gostava que pudesse ser para ti a sombra que se projecta em teu redor, o reflexo do espelho do teu quarto, o aroma do teu pescoço, o brilho dos teus olhos… as palavras que saem, que fogem doidas pela madrugada, enquanto enrolamos os lençóis.
        Antes de ir queria que fosses as horas do meu relógio, a música que ouço e as letras que escrevo. Queria que fosses as minhas mãos quando as passo nos meus bábios, ou o calor da lareira que sinto no meu corpo. Queria que fosses o sol e o vento, a chuva no meu cabelo e o castanho dos meus olhos.
        Antes de ir, vou olhar para trás e sorrir no teu corriso. No cabelo levarei mimosas frescas e perpétuas, como o meu amor. Sentarei ali no chão frio e deixarei que as borboletas fujam quando der o tiro certeiro, para que deixe de sentir que, antes de ir, nunca te tive…

       IcedRose (23.Jan.2008)

       Porque nada disto faz sentido… nada parece certo. No entanto, parece correcto… como o luar de Janeiro.

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A razão

   

    Odeio o modo como me olhas, sempre com esse ar que me faz sentir a única, esse mesmo que me transmite uma esperança ilusória e inaceitável.

    Odeio o teu gorro russo… prefiro ver-te de boné!

    Odeio os teus lábios e as tuas mãos, porque só me apetece tocar-lhes… e o teu corpo por tanto o querer apertar.

    Odeio o modo como me controlas e me julgas conhecer.

    Odeio o modo como te ris comigo… como me convidas a participar nas tuas fantasias, depois de saberes a amargura que me vai na alma.

    Odeio saber que não conseguiria estar junto a ti a menos de um kilómetro de distância, sem deixar cair lágrimas de tristeza por não conseguir estar aí, junto a ti…

    Odeio as músicas que me fazem lembrar de ti… do que sinto… que nem sonhas existir.

    Odeio o facto de não ter conseguido roubar o teu coração… usando da mesma perspicácia com que roubaste o meu.

    Odeio o facto de ser assim e de saber que a razão de tudo isto és tu… só tu…

    Mas o que eu mais odeio nisto tudo é saber que todo este ódio não existe…

    Nem de perto…

    Nem de longe…

    Nem um bocadinho sequer…

               Cláudia

               Porque sinto a tua falta a cada minuto que passa… R.

                         (inspirado em “As dez coisas que odeio em ti”)

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Anjo Negro

    Pelos céus cruzam-se cisnes pretos, borboletas e cavalos alados que marcham contra o horizonte, procurando as gotas salgadas do teu suor depois de me teres, depois de me olhares – mel sobre madeira – por onde penetram e te assaltam a alma.

    Durante os sonos intermináveis e obscuros, julgas ter asas coladas à pele – anjo negro – e voas longe, tecendo outro rumo no teu colar de pérolas… uma por cada mentira que me contaste. Ao acordar sentes os grãos de areia a fugirem-te dos pés e pelas mãos, e prometes deixar crescer as asas mais, e mais – douradas pelo sol.

    Assim continuarão os teus dias, em constante sobressalto pedindo o regresso, a volta, dos pássaros alados que são os meus dedos na tua pele e no teu cabelo. 
   
    A noite trás de novo o lume das estrelas e os sonhos navegam suspensos na poeira do ar. Anseias o final… a contagem decrescente para a ilusão. Mas a cada esquina que passas, ergue-se a morada eterna do teu corpo, cravejados de pérolas enferrujadas pelo sal.

    Pega na minha mão e eu tornarei o teu dia claro. Vem, voaremos longe vida fora…

              IcedRose (11.Jul.2006)
              Por entre mares e marés de espuma que invadem o meu corpo ténue.

WHEN ALL THE OXYGEN IS USED UP

    Os riscos que corremos dão-nos por vezes aquele doce paladar de conquista, ou aquele gosto amargo a derrota. Mas, aprendemos sempre algo, uma moral para mais tarde utilizar… ou simplesmente para recordar… ou apenas um martírio que nos perseguirá pelos tempos.
    Lembro-me de caminhar pela praia, descalça, sentindo os quartzos polidos debaixo dos meus pés e na pele uma forte brisa a mar. Estava quente a areia. Parecia triste… arrastando o corpo até à maré… o resto são retalhos de uma memória morta.

    Um mergulho. Uma luta para permanecer ao cimo das águas e o cansaço a dominar o meu corpo. Um respirar fundo, a quase desistência. O meu corpo mergulha progressivamente por entre a água, arrastado pela corrente, pelos corais.
    Debaixo da água sinto o coração a bater e os fluídos a correr pelas veias apressados. O meu corpo surge na água e aspiro. O peso nos pés que me puxa e me leva… arrasta suavemente. O meu coração bate mais lentamente e na minha mente passam flashes de luzes com episódios de outrora. Um breve apanhado do que me recordo nesta pré-incosnciência.

                    FLASH (uma luz lilás)

    Um mergulho (flash).
    A água a abraçar o meu corpo e a dominar-me (flash).
    A desistência, o mergulho… (flash).
    Boiava como uma pétala sobre as águas tranquilas – o sabor da água, a sal, o das lágrimas – o sal, tão parecido o sabor (flash).

    Relembro ter estado a falar contigo. De me teres tocado nos cabelos, enrolando os dedos nos meus caracóis. Lembro-me de entrelaçar os dedos nos teus enquanto me beijavas os lábios. Lembro-me da promessa de voltares. O dia estava quente. Ainda não tinha chegado o Outono. 

                    Flash (uma luz verde)

    Dos meus pulmóes fogem as bolhas de ar (flash). Uma lufada de ar, o respirar fundo (flash).
    O respirar fundo, o vento (flash), o cheiro da brisa, o ar (flash)…
    O meu coração bate lentamente, ouço-o pela água (flash).
    Uma montanha, vento forte, ar… ar… (flash)
    O respirar ao cimo da água, um mergulho, a água a envolver-me (flash).

    Recordo-me de te ter esperado no dia seguinte, e no outro… e nos meses seguintes. Foi quando a resposta chegou. Tinhas tentado encontrar-me de novo… tentando enganar uma morte certa, da qual não terias fuga possível. Tornou-se insuportável a tua ausência. Se não podes voltar, irei encontrar-te.

                    Flash (uma luz prateada)

    O coração deixou de bater, já não o ouço…
    Sinto-me a adormecer (flash) num manto líquido e transparente (flash).
    Corro no meio dum bosque, acácias em redor, medo de alguém (flash).
    Medo, medo… (flash).
    Um passeio num campo de trigo, a minha mão toca as espigas (flash). A minha mão toca as espigas de trigo (flash).
    Uma lufada de ar, um mergulho (flash), uma borboleta rosa-laser.
    O meu corpo dentro de água, por entre o trigo, no meio de um bosque (flash).
    Ele, ele (flash)… lindo ao luar… um beijo e uma promessa (flash) – quero-te.
    Uma mão que se estende… uma intensa luz branca (flash).

Cláudia (de 2000, reescrito em 16.Jan.2008)
When all the oxygen is used up, our body fall asleep in the light… forever, and ever!

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De olhos fechados… nada receies!

     Entras pela água dentro e mergulhas para ver as medusas, peles transparentes e sóbrias que te rodeiam e encharcam de rumores sórdidos… sentes a água a escaldar e o ranger das naus de outros tempos, como se ainda pairassem nas águas e se lá dentro existisse vida.
     Puxam-te. Não te querem ali… – fecha os olhos - dizem inquietas as vozes… muitas vozes… – fecha os olhos!
     Nada receies… vai e voa na vertigem dos tentáculos, mesmo que a lava do vulcão não te deixe passar ou o tornado além não te deixe regressar. Nada receies - dizem as vozes… – fecha os olhos!
     E sentes o ar a esgotar-se nos pulmões – nada receies – e olhas em redor… qual pedra curiosa te transformas e cais no fundo do mar…
     Esquecida…
     E ouves as vozes, sussuros vorazes que ecoam pela água. Riem-se!
                          

                                Icedrose (09.Jan.2008)
                                Nadando por entre um túnel, fecho os meus olhos…

One last time


    Olho em redor enquanto caminho por entre a chuva… de pés molhados e mãos nos bolsos. Não levo guarda-chuva. Ergo as mãos e sinto-a a escorrer pela cara, pelo pescoço, a pingar dos caracóis do meu cabelo.
    Deveria ser a última vez, mas tu não apareces-te.
    Piso a lama que cobre os caminhos de terra e continuo, sem ver bem o caminho, sem ter a tua mão para me guiar, como se te importasses, como se de novo viesses fazer brilhar o meu coração. Ñada deveria fazer-me sentir assim, nada.
    Provavelmente amanhã não haverá sol, nem luar, nem mar, nem chão… apenas chuva miudinha por entre a seara. Uma última vez, disseste tu de sorriso nos lábios.
    Caminho e não consigo ouvir o rugido forte dos trovões… Uma última vez… Mais uma vez…
    Parece anoitecer ao longe.

Cláudia 

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Quem sabe…

Alguém sabe o que te faz duvidar e querer nunca mais olhar para trás?
Alguém sabe o que esconde o teu sorriso ou o brilho do teu olhar?
Alguém algum dia conseguiu tocar os teus lábios com o coração a palpitar dentro do peito?
Alguém compreendeu a inércia que é viver contigo em florestas negras e ter no quarto caixas empoeiradas das viagens?
Alguém entende os dialectos em que falas… línguas de paz e de morte que tentas esquecer?
Alguém alguma vez riu contigo e chorou contigo e te seguiu vida fora, com o sol a cegar-lhe o olhar?
Alguém sabe falar contigo de amor?

Cláudia (IcedRose)
Vagueias solitário buscando um bem maior… e eu apenas tenho para te oferecer a linha da vida rasgada ao meio…

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Still missing you…

Ainda me lembro do sabor da brisa daquele dia… ainda te procuro nas areias daquela praia… sea…

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The inconvenient thruth

    Trocámos promessas ao luar, madrugada fora, com insectos que nos rasgavam a pele e nos sugavam o olhar…
    Quisemos que fosse de prata o nosso coração à força de tanto o querer partir e quando nos cruzámos de novo no corredor foi como se a prata se esmigalhasse, estilhaçasse em mil pepitas de vidro preto.
   O olhar tornou-se esquivo, sobressaltado e inquieto, como se houvesse algo… uma verdade inconveniente escondida no meio do medo.
   Gostaria que desaparecesse, esfumasse como poeira, para de novo nos sentarmos no alpendre a comer do mel da abelhas e a contar as estrelas dos nossos sonhos.

Cláudia (IcedRose)

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Vantagens de uma não-memória

    Desilusões atrás de desilusões… como se o rosto que estudo todas as manhãs não mostrasse curvas ou adornos. Perco-te sempre antes de te encontrar e nada parece ajudar a dissolver esse momento em que li o bilhete…
    As vantagens de uma não memória são imensas… não ficam resíduos, nem cortes ou bloqueios. Não nos agoniamos com as recordações que ficaram dos olhares, dos “olás” ou dos encontros fortuítos à entrada, quando me abrias delicadamente a porta para passar.
    Preferia não te lembrar, nem lembrar o preciso instante em que entraste pela sala dentro… foi como uma ventania que se levantou e um céu que clareou em uníssono.
    Guardo-te na minha não-memória, com uma etiqueta dourada a dizer o teu nome, para não me esquecer de ti… como poderia?!

Cláudia (IcedRose)

Junta-te a mim

Os gansos voam por entre o silveiral

bebendo do sumo das amoras

e além… muito além

pirilampos enviam mensagens

códigos secretos e intermináveis

de mim para ti.

Junta-te a mim

antes que a noite caia sobre nós

e as abelhas desapareçam

na ferrugem dos portões.

Como era bom

poder ver o que escondes atrás -

dentro – por entre -

o teu olhar.

Aflige-me ver-te distante do meu pensamento.

Junta-te a mim noite dentro

antes que as folhas caiam

e não mais voltem a crescer.

Os campos de aveia secarão com as intempéries

e não haverão papoilas ou rouxinóis carmim.

Seriam bom ter-te aqui

com a cabeça no meu regaço a olhar o rio

que canta – encanta.

Junta-te a mim.

Andaremos de mãos dadas -

água dentro -

correndo como loucos e rindo

sonhando com os tempos vindouros.

Junta-te a mim

abraça-me com a força das trepadeiras

e não me largues…

nunca me largues.

Junta-te a mim ao amanhecer.

Veremos as teias da memória desfazerem-se -

rasgarem-se -

invocando uma morte incerta

Junta-te a mim dia fora…

vem.

IcedRose (18.Julho.2007)

Corre o rio para o mar, por entre caniços e pedras de alabastro.

I could fall in love

Vem para junto de mim deliciar-te com o sabor das maçãs e do mel das abelhas. Prometo ficar contigo até ao anoitecer… quando acordares continuarei a teu lado a caminhada até ao horizonte.

Poderia apaixonar-me por ti, agora mesmo… com a mesma doçura com que te admiro e guardo no meu pensamento.

Poderia apaixonar-me por ti, agora mesmo e deleitar-me com o cheiro das violetas e alfazemas daqueles campos além… Vem, corre a meu lado e dá-me a tua mão – a mesma que me ampara e segura quando estou prestes a cair por terra.

Poderia apaixonar-me por ti… sim, poderia! Mas, e tu?

IcedRose (14.Jul.2007)

Por entre acordes delicados e aroma a hortelã-pimenta.

Caminha de costas para o sol
e persegue as sombras e penumbras
que fogem desafogadas da noite, dos horrores e lamentos -
como cavalos pretos que sobem colinas de musgo
à procura de um sossego
de um refúgio.

O manto negro cobre-te de sons,
cantares roucos e poéticos de grilos, sapos e corujas
que te enfeitiçam e puxam…
mais e mais para a escuridão.

Antes de adormecer olha o horizonte,
o fogo e o breu,
e as mãos – na esperança de nelas não crescerem gelhas
rugas ou buracos,
pelos quais possam fugir os instantes
os sabores e aromas
as sensações de loucura e liberdade
e tantas outras coisas que te faz,
mesmo assim,
olhar o horizonte…
o mesmo do qual foges todos os dias -
como uma maldição.

A areia dos teus sonhos escorre das tuas mãos,
carregada por brisas
por memórias, histórias antigas…
e cada grão ficará, para sempre, colado no manto negro
que te cobre
que tu persegues…

Não chores ao chegar a alvorada…
porque o dia passará rápido
para a noite te consolar…

IcedRose (02.Abr.2007)

Por entre os dedos escorrem os instantes, como areia do deserto ao sabor do vento que teima em mudar a paisagem a cada sopro teu…

Ao acordar

Sempre que acordas
e abras os braços na esperança de receber o sol da manhã,
fazes os votos
os desejos ou anseios… imploras -
por um conforto, pelo fim das melancolias.

Mas à tua frente não vês nada. Só portas de ferro
oxidadas pelo sal dos teus olhos.
Mais um dia comeca chovoso,
além pairam as nuvens negras
carregadas de desejos – teus.

Caminhas pela rua, por entre o nevoeiro
onde estão suspensas,
janelas de madeira lascada
que abres
que olhas e que receias…

Sempre que acordas, tudo se inicia novamente
como um vício
como uma música que se repete – infindável na memória.
Sempre que acordas eu te olho,
da janela que tu nunca ousas tocar – ou abrir. Espero-te.

IcedRose (27.Mar.2007)

Por entre gotículas de orvalho que escorregam pelo vidro da tua janela…